"Querida, você tem um coração na garganta"
Minha avó

segunda-feira, 16 de julho de 2018

TIJOLOS VERMELHOS

TIJOLOS VERMELHOS



“Senhora perfeitinha.” Pegadas de chuva sobre os tijolos vermelhos. A casa não havia mudado. A jabuticabeira abarcava boa parte do quintal. Gatos se enroscavam na terra úmida, um tempo que se devora, como frutas apodrecidas junto à sebe. Dedos entrelaçados da avó e da neta. Nada havia mudado. Nem mesmo sua voz rouca quando me chamava “Senhora perfeitinha. Minha senhora perfeitinha”. Calcei os chinelos pequenos, com os dedos para fora.
Entramos. O teto estava com algumas infiltrações. Cheiro de mofo, cheiro de casa de vó. “Fiz seu bolo.” Nada no forno ou na mesa. Nada de doce nos olhos de dona Maria. Fingi fome com os dedos ainda entre os seus. Rimos juntas. Uma forma de nos entendermos. A cozinha parecia menor, as portas dos armários estavam caídas. Nas prateleiras, potes coloridos com a palavra COOKIES e o desenho de biscoito mordido. O último biscoito do pote fora mordido havia mais de vinte anos, quando o vi pela última vez. Nada havia mudado.
Nossas mãos permaneciam entrelaçadas, se a soltasse, dona Maria balançaria o corpo, penderia para um dos lados. Levei a avó à sala. Ainda a renda castanha cobria o sofá e a poltrona. Um pouco puída, mas da cor de antes. “É o mesmo?”, não sabia exatamente a que me referia, apontei para um pedaço de chão entre a poltrona e o sofá. Ela confirmou. “É tudo a mesma coisa, tudo a mesma merda.”
Desfez-se das minhas mãos, penteou o cabelo para trás. Não tinha um fio de cabelo branco, depois de tanto tempo ainda o pintava. Cabelo ralo, pintado de marrom, exibia partes da nuca; olhei para a renda e o rosa do sofá. Tudo da cor de antes. “Tudo a mesma merda.” Arrisquei dizer-lhe que não tinha mudado nada, mas não me lembrava de como era vinte anos antes. Sua figura era de hoje e de antes, a pele fina, tombada sob braços e queixo. Não havia dona Maria nova. Ela era a avó de sempre. Quem me chamava de senhora perfeitinha com a voz rouca. Falei enfim da mancha. Estava menor. Único detalhe do qual me lembrava. A mancha de nascença na altura da boca. Cobria os vincos e o sorriso, o que a mantinha séria. Único detalhe de minha avó que guardei por tanto tempo, seu riso escondido pela mancha azulada. Guardava o sorriso em segredo. Decerto sua qualidade mais bonita. O que nos escondia.
Mesmo quando falava por horas, sem que pudéssemos interrompê-la, não nos mostrava tudo. Eu catava algum sorriso sob a mancha. Ela enfraquecia a voz ainda séria. Talvez sorrisse, nunca o saberíamos. Talvez também estivesse sorrindo naquele exato momento em que fitava a renda puída do sofá.
“Sabe que fiz essa renda quando estava noiva de Juvir Luiz?”. Ela nunca nos havia dito sobre o passado. Quando quase se casara com Juvir Luiz. Uma vez descobri uma foto do ex-noivo presa a um disco de Francisco Alves no quarto dos fundos. Perguntei-lhe se o retrato pertencia “àquele homem”, eu era criança, mas não me esquecia de um rosto tão facilmente, a avó desconversou. No outro dia, nem o disco ou a foto estavam ali. “Por que então guardou a renda?”, arrisquei. Ambas sabíamos o que aquilo representava, apesar do silêncio perpetrado havia décadas.
Ainda que nunca tivéssemos tocado no assunto, a figura de Juvir Luiz nos assombrava. Alguns anos após o rompimento do noivado com vovó, ele entrara para as Forças Armadas. Dona Maria nunca mais o vira ou tivera notícias suas. Ela viria revê-lo, contudo, em três de fevereiro de mil novecentos e setenta e nove, e todas desejamos que nunca o tivesse reencontrado. Nesse dia, a tempestade nos cobria a vista. Juvir estava na parte coberta do quintal. Vovó quis lhe preparar algo, mas ele negou, apenas precisava lhe informar sobre seu filho. Sem que nos preparássemos, ele revelou sobre seu desaparecimento três dias antes. Lembro-me de que olhava para aquele sujeito de farda sem entender o que nos dizia, sem a real noção de que, a partir daquele instante, nunca mais seríamos as mesmas. Desde então passei a associar o nome Juvir Luiz à mau agouro. A acreditar que a cor do corvo era verde.
 A casa de minha avó ganhou tijolos vermelhos, uma forma de esquecer que sob aqueles tijolos jaziam as pegadas daquele homem alto que anunciara o desaparecimento do filho de dona Maria. Os tijolos cimentaram também palavras sobre um tempo em que se costurava para um noivo, sem que se pensasse em prisões, torturas e desaparecimentos.
Busquei explicações à incoerência de se guardar por mais de quarenta anos aquela renda. Algo de luto, de reza à sua parte ausente se deitava junto ao sofá. Como o que se enterrava com os tijolos vermelhos. Tijolos sobre os quais havia me despedido da avó mais de vinte anos antes, quando minha mãe decidira se mudar para o Uruguai com três filhas pequenas por não compactuar com a eleição de um presidente sem a participação do povo.
A avó me olhava sem dizer nada. Imaginei que sorrisse. Sua mancha sobre o meu sorriso, ao menos aquele que eu imaginava que fosse meu, sempre quando ela me fitava. Disse, por fim, “minha senhora perfeitinha”, e levantou meu corpo pequeno. Eu baguncei o cabelo de birra, nunca almejei a perfeição. Tinha nove anos. Aos trinta ainda ouvia aquela voz e despenteava o cabelo. No fundo éramos iguais. Ela já com mais de oitenta, eu com mais de trinta anos, ambas sabíamos que perfeição não existia, no final tudo era decrepitude.
Final que me levava de volta àquele lugar para cuidar de um passado que não me pertencia. Uma casa, uma avó, uma mancha, abandonadas à memória de dona Maria. “Alguém precisa cuidar dela”, minha mãe havia me dito, certa de que eu era a única capaz. Todas me acusavam de neta preferida. Ser neta preferida em certas circunstâncias era também acusação. Sina que juntava avó e neta vinte anos depois, com os olhos fixos na renda castanha.
O teto gotejava novamente. A chuva voltara com força, ainda assim insisti retornar para junto da jabuticabeira. Gostava de colher jabuticabas na chuva. Gosto doce e molhado de infância. Fomos juntas à varanda. Sobre os tijolos, nos preparamos para pegar mais chuva. Eu e ela novamente. Tirei os chinelos, precisava afundar os pés no chão. Corremos sem pensar. Na chuva, vovó se lembrou. Já fora feliz alguma vez. Quando esperávamos que o temporal apertasse para cantarmos ao redor da árvore. Quando não precisávamos pensar em nada, exceto na letra da música. “Senhora perfeitinha, que tá fazendo? Lavando roupa pro casamento. Vou me lavar, vou me trocar. Vou na janela pra namorar [...].”            



         
     
   
                   

quinta-feira, 15 de março de 2018

Cêra Isa

Para Anita Deak


A  voz tremida da avó. Veludo gasto, arremedo de saudade. Afagava o cabelo curto da menina. Ainda é pequena, a menina. O pigarro cortava a fala. Tem muito o que aprender. A neta se aquecia nos olhos da avó, nos muitos anos umedecidos pelas pálpebras caídas. Olhavam o estrado, costumados de vida excedente. É pequena ainda, a menina. Demora pra crescer, entender da maldade.Os dedos se ajeitavam no cabelo curto da criança. Dedos tortos, formavam nós no cabelo, moldados pelo trabalho da casa.
Cheirava a cera Isa sua fala, de quando levava as crianças para o quarto e rodava com um pano pequeno pela sala. A pequena respirava aquele cheiro forte de cera Isa. Quieta, ouvia o que a avó dizia. A respiração lenta, atenta ao peito subindo e descendo. Uma gota de sangue secava no chão.
A avó ergueu o rosto. Apontou uma linha fina de poeira, aquecida por um pedaço de sol. A criança segurou firme as duas mãos nos pés da cadeira. Essa poeira é a gente, sabia, menina? Quando nossa pele troca, parte dela vira pó. A gente é pó, no final. Tentou piscar. O olho estava menos inchado do que da outra vez. É pequena ainda, a menina. Tossiu e virou o rosto. A neta quis se desfazer dos dedos presos na franja, mas o nó puxava o cabelo para a frente. A porta rangeu. Era a mãe. Brava, as narinas frementes. Do batente, armou sermão. Não era pra ver a vó daquele jeito. Não assim. Conseguiu livrar o nó daqueles dedos tortos. Arrastou a filha para fora do quarto. A vó precisa descansar. Não pode incomodar.
A criança chorou. Não pela bronca, mas por saber que era poeira. Como a avó. Poeira e mancha vermelha sobre a cera Isa.

P

quinta-feira, 30 de março de 2017

DEZ ANOS DE PALIMPSESTO

Exatamente hoje, meu blog completa dez anos. Palimpsesto é resultado de uma inquietação minha: existe texto original? Ao longo dos dez anos, fiz algumas raspadinhas, quando leio outros autores nos autores que leio de fato.
Continuo inquieta, com mais dúvidas do que respostas. Talvez meu pensamento seja um grande palimpsesto, penso eu.
Tenho entrado aqui raramente, sinal dos tempos, postagem substituída por poucos caracteres do twitter ou figuras ininteligíveis do Facebook. Mas mantenho o carinho pelo blog. Dos sonhos que larguei por aqui, no universo cor-de-rosa, silenciosa, sem leitores, apenas eu e o teclado.
Comemoro solitária dez anos inacabados sem champanhe, mas com alguma ilusão.
Ainda vendo futuro e uma gama completa de felicidade.





P.S.: Por coincidência, uma das minhas escritoras favoritas, Elvira Vigna, publicou recentemente um livro chamado Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas, em que a estrutura da narrativa se assemelha a um palimpsesto, pelas histórias de João (não sei por quê, me lembrou o Apocalipse, daquele João que viu e ouviu, daquela prostitua devorada pelos dez reis)

quarta-feira, 22 de junho de 2016

FAMÍLIA FELIZ: SORRISO DE FOTOGRAFIA

Entre a sala e o corredor existia um espaço desabitado. A janela se encerrava nos buracos antes ocupados por pregos. A porta era aberta pelo lado esquerdo, um sinal nada auspicioso pela família. Sim, chamávamo-nos de família quando ainda nos esquentávamos na palavra amor. Inutilizamos o espaço entre a sala e o corredor após entendermos que nunca conseguiríamos construir um lavabo ali, o sonho de Charles desde quando nos casamos. Assim também inutilizamos a palavra amor, quando percebemos que nunca conseguiríamos construir nada com uma palavra apenas.
Mas aquele espaço continuou lá, a metade de um lavabo, entre a sala e o corredor. Não quisemos destruí-lo, tampouco continuá-lo. Talvez isso também seja família, algo que, do desejo, se mostre irrealizável, mas que, justamente por nascer do desejo, nos negamos a destruí-lo, menos ainda a continuá-lo.
A minha família, pelo menos, nasceu assim. Lembro-me que, do primeiro parto, não queria que nascesse. Um filho, um nome. Uma mãe. Sem nome. Na época, Charles ainda estava empenhado em construir o banheiro para os visitantes, hóspedes ou mensagens mal-carregadas.
Estava obcecado. Queria algo entre luxuoso e simples. Chegou a pregar alguns quadros na parede. Flores em vasos, traços abstratos entre outras pinceladas. Sempre que eu via as pinturas, pensava na visita sentada na latrina, sob cores quentes e frias, concentrada no que nos deixaria, de fato, como recordação. Durou alguns anos a que ele se convencesse da impossibilidade dos quadros ali. Tempo a se interromper a construção do banheiro por mais de cinco vezes.     
A obsessão de Charles perdurou a minha segunda gravidez. Enjoava mais, me aguentava menos, mas persistíamos, tijolo por tijolo, na construção de algo entre o simples e o luxuoso. Franja colada na testa, corpo inclinado sobre os azulejos, a respiração quente de Charles, uma insistência perversa do movimento lento das mãos. Quando se deitou na cama naquela noite, eu já adivinhava. Havia desistido. Não quis se estender, apenas me disse que não aguentava mais e virou de lado. Eu, com o bebê e quase sem leite, pisquei em retribuição. Também não aguentava mais.


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Os filhos cresciam de repente. Filhos crescem de repente. Amava e odiava, pouco me reconhecia nas horas de olhos abertos e cabeça em outro mundo. Também me culpava por amar e odiar com a cabeça em outro mundo. Até que, quase sem conseguir respirar, redescobri aquele espaço. A metade de um lavabo. Um espaço escuro, uma nesga de um silêncio difícil. Nos dias ruins, me demorava naquele espaço escuro, o corpo quieto, aquele pedaço de silêncio que me faltava.
Chegava a me abraçar feliz, me formava daquelas horas demoradas de um quarto escuro. No final, sem visita ou recordações reais, sobre a latrina mal acabada e sob as cores quentes e frias, guardava-me dos outros. Meu segredo. Charles e meus filhos se cansaram de me procurar naquelas horas do dia. Não queria pensar neles, queria o silêncio e o escuro.
A metade de um lavabo passou a ser também metade dos meus dias. Era duas, fora e dentro do canto escuro. Às vezes, me arrastava até ali em meio à briga dos filhos, à bufada curta de Charles, ao meu cansaço prolongado. Ali me largava quieta. Ali me entendia. Ali crescia a vontade de nada.  Falava menos, queria mais. Charles fechava os olhos, mas não lhe escapava. Algo mudava em mim.
Um dia, do pequeno lavabo corri ao armário. Joguei as roupas em uma mala velha sem olhar para meus filhos. Não queria aquilo, não era aquilo. Era feita do silêncio que guardavam os dias no canto escuro. Buscaria aquele silêncio em outro lugar, já distante do que mal se formava por apenas uma palavra.
Da minha família, guardo hoje apenas uma foto. O sorriso de Charles, minha barriga grande, além dos primeiros azulejos do que seria um dia meu pedaço esquecido entre a sala e o corredor.   

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Telefone sem fio por Pedro Amorós

Dizem que o escritor dificilmente será um bom crítico literário. Quando leio o blog do escritor espanhol Pedro Amorós percebo o quão equivocada é essa afirmação. Além de um excelente escritor - quem tiver interesse, este site contém mais informações: http://www.pedroamorosjuan.com/ , eu gosto particularmente do seu romance "Bajo el arco en ruina" - Pedro Amorós é um ótimo ensaísta, como vem demonstrando em seu blog, com ensaios muito interessantes. Seu último é sobre meu romance Telefon Sem Fio, convido meus cinco leitores à leitura deste sensível e poético ensaio: http://pedroamoros.blogspot.com.es/2015/08/telefone-sem-fio.html

Ainda torço para que alguma editora brasileira se interesse em publicar seus livros no Brasil, todos sairíamos beneficiados.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Reflexões sobre o nada

Todos têm uma boa história ou estória para contar? Pode até ser, mas prefiro, sempre, a boa história que escondem. É nisso que me fio: todos guardamos (me incluo nessa) um segredo. Feio, sujo, engraçado, triste, bom, ruim, bom, mau, o segredo me move. Gosto e me preocupo com o que não é dito, mais do que com a palavras exatas de um diálogo. Até porque um bom diálogo se realiza mais com o que não se diz, do que com o que se fala, de fato.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

eu jurei que iria mudar de disco, mas sou pouco confiável quando o disco é bom

Este ensaio sobre o Telefone Sem Fio merece um ensaio sobre o próprio ensaio. Incrível como o William Lial enxergou o que pouco vi, como, por exemplo, o vômito do urubu comparado aos cuspes da Alma.

http://www.musarara.com.br/a-esquerda-do-mundo

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Telefone Sem Fio: mais resenhas (prometo mudar o disco na próxima postagem)

Aos poucos meu livro é lido e algumas vezes resulta em resenhas muito interessantes, como estas duas:
http://www.literaturabr.com/2014/08/18/a-estrutura-narrativa-de-um-telefone-sem-fio/

http://andreadebarrosblog.com/2014/05/13/tirando-meu-sono/

Nathan reconhece a melancolia em Alma Pontes, e Andrea de Barros reconhece a si mesmo. Fico muito feliz com as leituras.

domingo, 3 de agosto de 2014

Arte do erro

Do latim errare, errar também significa perambular, vaguear e até mesmo espalhar-se. Gosto muito do erro, de onde, inclusive, nasce a arte.  Erro, na minha modesta opinião, é a transgressão inconsciente da norma. Com corretores automáticos, vídeos do youtube dispostos a expor os erros dos outros como forma de nos esquecermos dos nossos, postagens no facebook  sempre prontas a apontar e quase a criminalizar todo e qualquer erro, passamos a viver em um mundo praticamente estéril (ou seria histérico?), é a "geração jontex", alguém já o disse ou escreveu. Eu sou a rainha dos erros. Telefone sem fio é um belo exemplo. Não seria publicado por outra editora exceto pela Patuá. Imagino algum revisor querendo modificar todas as preposições "pra" para "para" e arranco meus cabelos. "Pra" resume Alma Pontes, inscrita em uma caligrafia compulsiva e descuidada. Em dado momento do livro o leitor se depara com um "podólotra", ops!, diriam alguns, ai, doeu!, diriam outros. Não, não se trata de erro ortográfico, tampouco de digitação. É um erro, sim, mas um erro proposital cometido por Alma, que, ao inscrever o substantivo entre aspas o associa a um locutor, ou melhor, locutores, no plural, os mesmos que qualificam o podólatra de "tarado". Há também uma fala da mãe de Alma marcada por vírgulas, todas suas frases começam e terminam por vírgulas, a guardá-la em uma infinitude incompatível com a gramática normativa. Poderia dar outros e outros exemplos, mas acabarei aqui com o prazer de quem quer encontrá-los. Vale lembrar que: 1) Alma escreve descuidada e compulsivamente dentro de um carro, erros são bem-vindos. 2) Ela não escreve como fala, tampouco como pensa, mas, como sente: novamente, erros são bem-vindos.          

Telefone Sem Fio por Reynaldo Damazio

No dia 26 de julho foi publicada no Guia de Livros da Folha de São Paulo uma resenha muito interessante escrita por Reynaldo Damazio:

"TELEFONE SEM FIO

A brincadeira a que faz alusão o título do romance de Vera Helena Rosssi indica o texto especular, cuja trama se desdobra de modo imprevisível, como as versões que se multiplicam e diversificam ao passar de um ouvinte (ou leitor) a outro.

Grosso modo, o livro fala dos caminhos tortuosos, mas vividos com intensidade, de Alma Pontes, da juventude à dita maturidade - seja lá o que for isso -, numa espécie de formação às avessas, uma vez que a experiência (profissional, afetiva, familiar) se esboroa e não culmina com o aprendizado, mas simplesmente com a consciência de que "nunca temos um plano B".

O fim da tinta de uma de suas inúmeras canetas Bic pode ser dramático e ameaçar a ligação de Alma com o registro frenético e delicado do cotidiano, no limite entre as vozes da escritora e da jornalista."

Fonte:
http://acervo.folha.com.br/fsp/2014/07/26/567/
página: NF8