"Querida, você tem um coração na garganta"
Minha avó

quarta-feira, 22 de junho de 2016

FAMÍLIA FELIZ: SORRISO DE FOTOGRAFIA

Entre a sala e o corredor existia um espaço desabitado. A janela se encerrava nos buracos antes ocupados por pregos. A porta era aberta pelo lado esquerdo, um sinal nada auspicioso pela família. Sim, chamávamo-nos de família quando ainda nos esquentávamos na palavra amor. Inutilizamos o espaço entre a sala e o corredor após entendermos que nunca conseguiríamos construir um lavabo ali, o sonho de Charles desde quando nos casamos. Assim também inutilizamos a palavra amor, quando percebemos que nunca conseguiríamos construir nada com uma palavra apenas.
Mas aquele espaço continuou lá, a metade de um lavabo, entre a sala e o corredor. Não quisemos destruí-lo, tampouco continuá-lo. Talvez isso também seja família, algo que, do desejo, se mostre irrealizável, mas que, justamente por nascer do desejo, nos negamos a destruí-lo, menos ainda a continuá-lo.
A minha família, pelo menos, nasceu assim. Lembro-me que, do primeiro parto, não queria que nascesse. Um filho, um nome. Uma mãe. Sem nome. Na época, Charles ainda estava empenhado em construir o banheiro para os visitantes, hóspedes ou mensagens mal-carregadas.
Estava obcecado. Queria algo entre luxuoso e simples. Chegou a pregar alguns quadros na parede. Flores em vasos, traços abstratos entre outras pinceladas. Sempre que eu via as pinturas, pensava na visita sentada na latrina, sob cores quentes e frias, concentrada no que nos deixaria, de fato, como recordação. Durou alguns anos a que ele se convencesse da impossibilidade dos quadros ali. Tempo a se interromper a construção do banheiro por mais de cinco vezes.     
A obsessão de Charles perdurou a minha segunda gravidez. Enjoava mais, me aguentava menos, mas persistíamos, tijolo por tijolo, na construção de algo entre o simples e o luxuoso. Franja colada na testa, corpo inclinado sobre os azulejos, a respiração quente de Charles, uma insistência perversa do movimento lento das mãos. Quando se deitou na cama naquela noite, eu já adivinhava. Havia desistido. Não quis se estender, apenas me disse que não aguentava mais e virou de lado. Eu, com o bebê e quase sem leite, pisquei em retribuição. Também não aguentava mais.


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Os filhos cresciam de repente. Filhos crescem de repente. Amava e odiava, pouco me reconhecia nas horas de olhos abertos e cabeça em outro mundo. Também me culpava por amar e odiar com a cabeça em outro mundo. Até que, quase sem conseguir respirar, redescobri aquele espaço. A metade de um lavabo. Um espaço escuro, uma nesga de um silêncio difícil. Nos dias ruins, me demorava naquele espaço escuro, o corpo quieto, aquele pedaço de silêncio que me faltava.
Chegava a me abraçar feliz, me formava daquelas horas demoradas de um quarto escuro. No final, sem visita ou recordações reais, sobre a latrina mal acabada e sob as cores quentes e frias, guardava-me dos outros. Meu segredo. Charles e meus filhos se cansaram de me procurar naquelas horas do dia. Não queria pensar neles, queria o silêncio e o escuro.
A metade de um lavabo passou a ser também metade dos meus dias. Era duas, fora e dentro do canto escuro. Às vezes, me arrastava até ali em meio à briga dos filhos, à bufada curta de Charles, ao meu cansaço prolongado. Ali me largava quieta. Ali me entendia. Ali crescia a vontade de nada.  Falava menos, queria mais. Charles fechava os olhos, mas não lhe escapava. Algo mudava em mim.
Um dia, do pequeno lavabo corri ao armário. Joguei as roupas em uma mala velha sem olhar para meus filhos. Não queria aquilo, não era aquilo. Era feita do silêncio que guardavam os dias no canto escuro. Buscaria aquele silêncio em outro lugar, já distante do que mal se formava por apenas uma palavra.
Da minha família, guardo hoje apenas uma foto. O sorriso de Charles, minha barriga grande, além dos primeiros azulejos do que seria um dia meu pedaço esquecido entre a sala e o corredor.   

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Telefone sem fio por Pedro Amorós

Dizem que o escritor dificilmente será um bom crítico literário. Quando leio o blog do escritor espanhol Pedro Amorós percebo o quão equivocada é essa afirmação. Além de um excelente escritor - quem tiver interesse, este site contém mais informações: http://www.pedroamorosjuan.com/ , eu gosto particularmente do seu romance "Bajo el arco en ruina" - Pedro Amorós é um ótimo ensaísta, como vem demonstrando em seu blog, com ensaios muito interessantes. Seu último é sobre meu romance Telefon Sem Fio, convido meus cinco leitores à leitura deste sensível e poético ensaio: http://pedroamoros.blogspot.com.es/2015/08/telefone-sem-fio.html

Ainda torço para que alguma editora brasileira se interesse em publicar seus livros no Brasil, todos sairíamos beneficiados.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Reflexões sobre o nada

Todos têm uma boa história ou estória para contar? Pode até ser, mas prefiro, sempre, a boa história que escondem. É nisso que me fio: todos guardamos (me incluo nessa) um segredo. Feio, sujo, engraçado, triste, bom, ruim, bom, mau, o segredo me move. Gosto e me preocupo com o que não é dito, mais do que com a palavras exatas de um diálogo. Até porque um bom diálogo se realiza mais com o que não se diz, do que com o que se fala, de fato.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

eu jurei que iria mudar de disco, mas sou pouco confiável quando o disco é bom

Este ensaio sobre o Telefone Sem Fio merece um ensaio sobre o próprio ensaio. Incrível como o William Lial enxergou o que pouco vi, como, por exemplo, o vômito do urubu comparado aos cuspes da Alma.

http://www.musarara.com.br/a-esquerda-do-mundo

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Telefone Sem Fio: mais resenhas (prometo mudar o disco na próxima postagem)

Aos poucos meu livro é lido e algumas vezes resulta em resenhas muito interessantes, como estas duas:
http://www.literaturabr.com/2014/08/18/a-estrutura-narrativa-de-um-telefone-sem-fio/

http://andreadebarrosblog.com/2014/05/13/tirando-meu-sono/

Nathan reconhece a melancolia em Alma Pontes, e Andrea de Barros reconhece a si mesmo. Fico muito feliz com as leituras.

domingo, 3 de agosto de 2014

Arte do erro

Do latim errare, errar também significa perambular, vaguear e até mesmo espalhar-se. Gosto muito do erro, de onde, inclusive, nasce a arte.  Erro, na minha modesta opinião, é a transgressão inconsciente da norma. Com corretores automáticos, vídeos do youtube dispostos a expor os erros dos outros como forma de nos esquecermos dos nossos, postagens no facebook  sempre prontas a apontar e quase a criminalizar todo e qualquer erro, passamos a viver em um mundo praticamente estéril (ou seria histérico?), é a "geração jontex", alguém já o disse ou escreveu. Eu sou a rainha dos erros. Telefone sem fio é um belo exemplo. Não seria publicado por outra editora exceto pela Patuá. Imagino algum revisor querendo modificar todas as preposições "pra" para "para" e arranco meus cabelos. "Pra" resume Alma Pontes, inscrita em uma caligrafia compulsiva e descuidada. Em dado momento do livro o leitor se depara com um "podólotra", ops!, diriam alguns, ai, doeu!, diriam outros. Não, não se trata de erro ortográfico, tampouco de digitação. É um erro, sim, mas um erro proposital cometido por Alma, que, ao inscrever o substantivo entre aspas o associa a um locutor, ou melhor, locutores, no plural, os mesmos que qualificam o podólatra de "tarado". Há também uma fala da mãe de Alma marcada por vírgulas, todas suas frases começam e terminam por vírgulas, a guardá-la em uma infinitude incompatível com a gramática normativa. Poderia dar outros e outros exemplos, mas acabarei aqui com o prazer de quem quer encontrá-los. Vale lembrar que: 1) Alma escreve descuidada e compulsivamente dentro de um carro, erros são bem-vindos. 2) Ela não escreve como fala, tampouco como pensa, mas, como sente: novamente, erros são bem-vindos.          

Telefone Sem Fio por Reynaldo Damazio

No dia 26 de julho foi publicada no Guia de Livros da Folha de São Paulo uma resenha muito interessante escrita por Reynaldo Damazio:

"TELEFONE SEM FIO

A brincadeira a que faz alusão o título do romance de Vera Helena Rosssi indica o texto especular, cuja trama se desdobra de modo imprevisível, como as versões que se multiplicam e diversificam ao passar de um ouvinte (ou leitor) a outro.

Grosso modo, o livro fala dos caminhos tortuosos, mas vividos com intensidade, de Alma Pontes, da juventude à dita maturidade - seja lá o que for isso -, numa espécie de formação às avessas, uma vez que a experiência (profissional, afetiva, familiar) se esboroa e não culmina com o aprendizado, mas simplesmente com a consciência de que "nunca temos um plano B".

O fim da tinta de uma de suas inúmeras canetas Bic pode ser dramático e ameaçar a ligação de Alma com o registro frenético e delicado do cotidiano, no limite entre as vozes da escritora e da jornalista."

Fonte:
http://acervo.folha.com.br/fsp/2014/07/26/567/
página: NF8

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A vida é



Sabia do tanto que se fechava na palavra dor. “Viver é estar preparado para sentir dor.” Esta era a máxima que um avô poderia ensinar a sua neta. Ele entendia o quanto poderia preparar sua neta com aquela frase. Era seu dever, afinal. Dever cívico, diga-se. Preparar um neto, aquele ser que se aquece nos olhos do avô, nos muitos anos que estes olhos guardam; transmitir a este mínimo corpo o essencial da vida. “E o principal é isto, saber da dor, minha pequena.”
A neta não piscava, mal respirava, atenta à respiração lenta do avô, às verdades sobre as quais se encurvava uma vida excedente. “Minha menina, a gente até pode passar a vida inteira livre dela. Mas pra qualquer hora a dor chega, ah, se chega. E quando falo dela, não me refiro a uma topada do dedo no pé da cômoda, não. Digo de quando arrancam seu dedo fora. Da dor extrema. Sabe como é? Arrancar um dedo fora?” A pequena sacudia a cabeça como se entendesse do extremo. “Eu já. Sei o que é ter um dedo amputado.” Ele arrancou o sapato e mostrou o pé direito deformado pelos joanetes e pela ausência de um dedo. Ela quase pulou da cadeira, mas se ajeitou melhor no assento duro, em uma pose heroica, como que preparada a toda dor.
Por pouco, não lembrou ao velho de quando tinha passado por uma cirurgia no olho esquerdo, sem anestesia. O pai havia insistido para que a filha recebesse por uma agulha a supressão de qualquer sensibilidade física. Como resposta apenas ganhara uma risada alta da criança, que queria a dor. Mas o que é a dor de um terçol arrancado se comparada a de um dedo decepado? Corou, envergonhou-se da lembrança.
“Você não pode ver, minha menina, mas tudo é dor. A gente quer se esconder debaixo de um teto, em um amor gigante, que nem a gente sabe explicar direito o que é, dentro de uma casa limpa, que a gente vive e morre pra manter ela limpa. Disfarçado na bondade, a gente se ilude de que a linha invisível já é outro mundo.” Apontou uma linha fina de poeira aquecida por uma nesga de sol. A criança segurou firme as duas mãos nos pés da cadeira.
“Essa linha invisível que faz a gente acreditar que está protegido. Que a gente é bem diferente daquela ferida pustulenta na perna do pedinte caído na calçada. É tudo a mesma coisa. Isso é que é a vida. A carne da presa estraçalhada pelas leoas. E se você não souber disso agora, um dia vai saber, pequena menina. Então que seja eu, seu avô, que te conte antes, que te prepare. É meu dever, dever de avô.”          
A porta rangeu, a mãe tocou o cabelo curto da filha aproximando-a da linha invisível de poeira. “Lê, o vovô precisa descansar. O que é isso agora, pai? não chora.” “Sua neta precisa saber da verdade.” “Deixa de coisa, pai, vê se descansa. Dá um beijo no vovô, Lê.” A mãe deixou que a filha desse o beijo que ela nunca havia dado, um beijo guardado por tantos e tantos anos. Afastou a filha da dor, ainda que do próprio nascimento se marcasse no corpo da mãe a própria expiação. Deixaram o avô descansar, ainda que do próprio corpo não nascesse cansaço, mas uma falta dolorida e exposta.

Telefone Sem Fio em outras mãos

Este trecho foi extraído por uma leitora/escritora/poeta que admiro muito: Andrea de Barros, por isso me é muito especial. Senhoras e senhores, Telefone Sem Fio sob outros olhos:


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Entrevista para a Confraria do Vento

Saiu uma entrevista muito bacana comigo para o blog da Confraria do Vento, pela Ana Rüsche.

Leia aqui a entrevista.

Hoje é o dia do lançamento. Espero todos os cinco!