Voltei ao meu romance, Ponto Libra, cujo lema é "Gênero não me pega mais" de Clarice Lispector. Minha personagem também é ele-ela. Vamos ver no que vai dar. Eis o início:
PRIMEIRA PARTE - ÁDVENA
CAPÍTULO 1 – 12:00 A.M.
Abro os olhos. Não sou o mesmo. Um dia neste quarto escuro e já não sou a mesma. Estranho como as coisas acontecem em um emaranhado de espera e de solidão. Queria, ou melhor, deveria sentir alguma coisa, mas não consigo sentir nada. Triste, feliz, doente. Nada.
Nada. No máximo, um repuxão na coxa direita. “Quando chove”, costumava dizer a Angel e segurava com força minha perna, como se quisesse agarrar a dor, dobrá-la à minha mão. “A dor na palma da mão”, era o que eu queria dizer a Angel. O rádio-relógio segue ao meu lado. Meia noite em ponto, nada mal para quem dormiu um dia inteiro. Tenho meia madrugada e meia a me lembrar da chuva e da minha coxa direita.
Viro-me para o rádio-relógio, cá estamos, cada qual com o som que lhe cabe. O meu se limita a uma respiração curta enquanto sintonizo o rádio em uma música qualquer. Hits sertanejos, tudo o que o rádio-relógio tem a me oferecer. Aceito com humildade sua oferta, ao que a retribuo na tentativa de acertar minha respiração. Parece até que conheço a letra, chego a cantar junto sem me saber cantor: Eu lhe disse quando eu vim, que eu era um estranho / Eu lhe disse quando eu vim, que eu era um estranho
Perfeita cantora eu, já repito o refrão: É você meu amor, você que é a estranha / É você meu amor, você que é a estranha
Chacoalho o corpo na cama a cada refrão. Era estranho, sou estranha, danço sobre o lençol imundo deste hotel. Enceno meu refrão nesta cidade da qual nada sei.Quase nada sei de mim, é verdade. Do pouco que sei já é música, se alinha à esquerda e à direita em compasso com a canção, cada vez mais estranha. O cantor agora se demora em uma nota tremida. Um dom até, se prolongar por mais de minutos no tremor da nota. Espero o final, mas o locutor se adianta e interrompe a música. Outras melodias atropelam a letra que já é minha, mas ainda danço meu refrão: É você meu amor, você que é a estranha / É você meu amor, você que é a estranha.
O telefone toca durante meu bailado sertanejo. Não que não seja esquisito alguém ligar para um quarto de hotel às 12:21A.M. — horário que alcanço ao me inclinar para o rádio-relógio — mas intrigo-me menos com a ligação do que com o palíndromo, segundo número que enxergo quando vejo as horas.
“Leonardo. ....Sei que é tu. Eu te”
“Desculpe, mas você se enganou de quarto. Não sou Leonardo.”
Desligo, ao que o telefone insiste. Não sou tão persistente quanto ele, atendo novamente o que se insiste no outro:
“Tu não é Leonardo”
“Hum”
“Sei quem é tu.”
“A-hã, e quem eu sou?”, começo a gostar da brincadeira.
“A namorada dele.”
“Pois então, sou ela.”, continuo o jogo, que mais se assemelha a uma promessa: ... de uma dança a dois sobre o lençol sujo...
“Sabia! O Leonardo não tem essa voz fina!”
“Não quer vir aqui. Pra ver se eu sou ela, quer dizer, eu, a namorada. Sabe o número do quarto, não.”
“Tu é um tarado, isso sim.”
“Como quiser. Minha oferta continua. O que acha? No meu ou no seu quarto.”
“Ah, vai te catar.”
Não me espera ao final da oferta. Quero ao menos dizer “adeus”. Digo “tchau” ao tuuutuuuutuuu... do outro lado da linha. Do que consigo imaginar quando do telefone tenho apenas a voz como garantia de conversa, imagino-a morena. Bonita, cabelos curtos, para não esconder a tatuagem na nuca ou a sobrancelha arqueada que acompanha os olhos miúdos. A boca e o corpo são finos, o nariz aquilino e o piscar de olhos lento. Mexe os braços enquanto fala. Mexe comigo enquanto fala. Maria, se chama Maria, em busca de um José. De algum outro José a procura da manjedoura. Volta-me meu refrão a me lembrar do rádio-relógio. Aumento o volume, na esperança de ouvir dele minha letra, mas ele me surpreende com a risada pontuda do locutor:
...aaaarrarrarra, arraaaa...como é que é, Jucimara, dançar de Kuduro? Não é...É Latino...A dança ku-du-ro Mas o que é que é isso!? Brincadeira, Jucimara, tu acertou a resposta, o novo sucesso do Latino é Kuduro. Agora a última pergunta. Tu quer responder agora, e ganhar o dobro de pontos, ou prefere manter o que já tem Hum...Não sei...hum, deixa eu pensar..hum. Quero ficar com o que eu já tenho. Muito bem, Jucimara, até agora tu já acumulou:
CE,,CEM PONTOSS...
Muito bem, Jucimara. Quer pedir uma música? Ai, eu quero. Pode ser do Leonardo? Pode, Jucimara. Qual música tu quer dele?Ai, aquela, sabe? do estranho? Amor Estranho? Isso, essa mesma. Mas acabamos de tocar Amor Estranho. Escolhe outra Então, tá, eu quero então a outra mais lenta dele Deixa eu te amar.Tu quer dedicar esta música a alguém, Jucimara? Quero. Ao meu noivo: Gilvan. E com vocês, de Jucimara para Gilvan....DEIXA EU TE AMAR....
Outra música me retorna ao meu refrão. Já me sinto ádvena. Gosto da palavra ádvena.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Remediado está no Cronópios
Meu conto Remediado Está agora pode ser lido no melhor Portal de Literatura do país:
http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=5239
http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=5239
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Nome Duplo
Ele chegou antes do previsto. Não estava preparado. Aquiesci sua visita antecipada com um sorriso apertado e um tanto idiota. Olhamo-nos por algum tempo antes que arriscássemos alguma palavra que não nos estranhasse àquele silêncio. Sua figura alta e corpulenta pouco se assemelhava ao rosto afilado da fotografia suspensa no site da Sociedade Ourinhense de Cirurgia Plástica. Mas ainda aquele vinco no canto da boca, ah, aquele vinco no canto da boca, persuasivo, como que a nos convencer que beleza é um bem fundamental.
— Os sapatos brancos...— ele disse por fim. Voltou os olhos a um ponto qualquer da minha sobrancelha esquerda. Esperei por uma continuação àquela observação, mas não ocorreu, apenas o silêncio de antes e meu riso pateta.
— Por isso me chamam de Jacinto! — arrisquei desajeitado. Ele já sabia de cor a minha história, repetida tantas e tantas vezes por e-mail, msn, chat e torpedos de final de dia. — Com o tempo aprendi,
— Aprendeu que gastar as solas dos sapatos é uma arte que requer não apenas bons sapatos, mas sapatos brancos.
— Como então?! Já decorou minha resposta pronta a alguém que me pergunte por que sapatos brancos? — Na verdade, não me espantou o fato de ter decorado minhas esquisitices, a julgar pelas tantas vezes que as escrevi nos e-mails enviados a ele.
— Imagino que já não aguenta mais quando falam dos seus sapatos ou te chamam de Jacinto.
— A verdade é que me acostumei ao apelido. Todos me conhecem por Jacinto. Acho que ninguém sabe do meu nome verdadeiro.
— Do nosso nome,
Sim, tínhamos exatamente o mesmo nome, Reynaldo Augusto Costa. Conquanto não tocássemos no assunto, a coincidência dos nomes era a razão pela qual ele adentrava pela primeira vez meu apartamento, enquanto apontava os olhos a algum ponto da minha sobrancelha e falava dos meus sapatos brancos.
****
É certo que todos guardamos um segredo; ainda que pequeno, sempre há de existir um ali, muito próximo daquilo que nos força a dizer “tudo bem” a cada cumprimento. Disfarçado sempre nos há de existir um segredo, a nos doer as pontas dos dedos. Também eu cultivava o meu, o que comprovadamente não fazia de mim um sujeito diferente dos demais. Mas devo admitir que as consequências desse meu inocente segredo quase comprometeram minha sanidade.
No início tratava-se mais de uma mania. Poucos dos meus amigos me chamavam pelo nome. Era conhecido apenas por Jacinto, em decorrência dos sapatos brancos nos quais acomodava meus pés e pelos quais conduzia macio o meu andar. A alcunha se referia ao Jacinto Figueira Jr., aquele do extinto programa televisivo, “O Homem do Sapato Branco”. E por Jacinto, simplesmente Jacinto, todos me tomavam. Talvez por esta razão, tinha necessidade de me inscrever na Internet com o meu nome verdadeiro. E talvez por isso também tinha o hábito diário de procurar por “Reynaldo Augusto Costa” no Google.
Todas as noites, às vinte horas e quarenta e sete minutos, digitava meu nome completo no Google. Um nome nada usual, principalmente pelo nome-duplo Reynaldo Augusto, de modo que o encontrava apenas nos sites que costumava visitar, além dos concursos públicos que prestara e dos abaixo-assinados que sem paciência assinara. As minhas próprias pegadas: era o que efetivamente rastreava. Mas ainda assim não me cansava me buscar na Internet. Às vezes me digitava entre aspas; noutras, sem as aspas, noutras até tão-somente em siglas. Uma gama de combinações me constituía naquele extenso universo de possibilidades. Minhas pesquisas se estendiam madrugada adentro, sem que me cansasse.
Bem verdade que no dia posterior, mal me aguentava no escritório onde trabalhava. Mas me valia mais presente pelo nome que poucos conheciam. Poucos, bem poucos me sabiam pelos três nomes que se formavam devagar a cada letra digitada. E, a cada noite, me encontrava e me perdia nos resultados apontados pelo Google ao meu digitar frouxo. Reynaldo Augusto Costa, como me era caro assim me inscrever. Eu, em código binário. Eu, por meu nome próprio. Eu, antes de nascer. Tornou-se um vício até, minhas buscas madrugada adentro.
Naquela madrugada, entretanto, me perdi de vez ao me deparar com um site que pouco me dizia respeito. Era um site de cirurgia plástica. Pertencia a uma certa Sociedade Ourinhense de Cirurgia Plástica da qual nunca tinha ouvido falar. A princípio, estranhei o site, resultado de uma busca com meu nome completo entre aspas. Digitei novamente meu nome completo entre aspas, na esperança que a página derivasse de um erro de digitação, mas não. Dentre os resultados, brilhava mais forte o tal site, uma espécie de provocação. Entrei no site e eis que surge meu nome completo, Reynaldo Augusto Costa, sob a foto de um cirurgião plástico. Na realidade, a fotografia apenas exibia o rosto um tanto mirrado do médico.
Ele aparentava trinta e cinco anos no máximo, olhos pequenos e escuros sob duas sobrancelhas espessas, a contornarem duas lentes grossas dos óculos sustentados por um nariz adunco, ambos desproporcionais à face magra. Não tinha um rosto harmonioso, mas mantinha um sorriso persuasivo, como se quisesse convencer a quem o visse que beleza era um bem fundamental. Examinei o site durante a noite inteira. Abri todos os links que este pudesse me oferecer, percorri por todos os endereços possíveis e voltei-me à foto do médico por mais de vinte vezes — confesso que na vigésima vez desisti de contar. Nas últimas vezes em que olhei a foto, o cirurgião me parecia menos feio, ou melhor, já me parecia belo, harmonioso aos três nomes que o definiam. Virou uma ideia fixa até, retornar-me àquela foto, atribuir-lhe beleza e relacioná-la ao meu nome. Eu, ele, nós, antes de nascer, o início do meu fim.
****
Quando me dizem bom dia, agarro fervorosamente o dito, como se fosse este um desejo sincero. Uma promessa. Uma previsão de que meu dia será, que sorte a minha!, bom. Assim cubro de agradecimentos verdadeiros aquele que se repete todas as manhãs em bom-dia, e que sequer entende a dimensão do meu obrigado, ao me atropelar com um "de nada" corrido. Já de saída agarrei o “bom dia” automático do vizinho com tal veemência que o assustei, a ponto de abandonar o elevador no andar seguinte.
— Esse não é o térreo, mas o nono andar. — tentei dizer, ao que o vizinho não respondeu.
Continuamos eu e o desejo de bom dia no elevador. Aquele seria um dia bom, assim me convencia. Acordara com algum ânimo além da notícia de que ele me aceitara no Facebook. Tantos e-mails enviados em vão, mas por fim, ele aceitara meu convite. Não sabia que tínhamos o mesmo nome, pois o convidara com o perfil do Jacinto. Tampouco sabia ele da minha obsessão. Das vezes que liguei ao seu consultório por engano. Das madrugadas em que o procurei no Google, em que o espionei na Internet. Não, não o sabia. Nem mesmo eu já sabia de mim. Já não me reconhecia.
Mas naquela data, agarrado ao “bom dia” do vizinho, entraria no Facebook do escritório mesmo e me revelaria ao outro, pelo nosso nome. Aquele era o momento, não conseguiria mais tempo a guardar um segredo. Necessitava me libertar daquilo que me consumia, que me embaralhava em uma pesada paixão. Ao chegar ao escritório, contudo, tive uma surpresa. Um sujeito, de nome Reynaldo Augusto, tinha me procurado ainda bem cedo.
— Ligou ainda agora pela segunda vez. Não sabia que você era Reynaldo! Sempre achei que fosse Jacinto. — se repetiu a secretária, ao me entregar o papel anotado com o telefone e o nome-duplo, igual ao meu.
Tomei algum fôlego, acertei o dedo indicador aos oito números e esperei.
— Alô?
— Oi, meu nome é Reynaldo Augusto — havia muito tempo que não pronunciava meus dois nomes em um lugar público, engasguei satisfeito — me avisaram que o senhor ligou aqui no escritório procurando por mim.
....
— Alô?
— Desculpe. É que a história é um pouco longa. Pra encurtar, recebi uma correspondência de uma loja aí em São Paulo, sobre um cheque sem fundo. Mal vou pra São Paulo, achei no mínimo, engraçado.... Então descobri que existia outro Reynaldo Augusto Costa, que morava em São Paulo. Descobri também onde ele trabalhava. Liguei já duas vezes aí. Engraçado...demoraram a saber que era você. Achavam que seu nome era Jacinto.
— Pois é, um nome tão diferente, e temos os dois, o mesmo nome. Jacinto é meu apelido.
— Como?
— Todos aqui me conhecem por meu apelido: Jacinto.
— Engraçado...— para ele tudo parecia engraçado, tinha uma voz pausada, um tom grave, a fazer do engraçado algo estranho, quase uma tragédia.
Aos poucos nos apresentamos pra além dos nossos nomes iguais. Mais tarde disse a ele do convite no Facebook, e da amizade que viria nascer após o telefonema. Continuamos a nos corresponder por e-mails, msn, chat e torpedos de final de dia, até que por fim acertamos sua visita ao meu apartamento assim que ele viesse para São Paulo.
No dia combinado, me preparei ao apartamento que o receberia pela faxina e pelo banho de colônia. O relógio apontava dez para sete da noite. Ele chegaria dali a menos de duas horas. Aguardei ansioso enquanto observava sua foto na Internet. Um par de olhos escuros e um meio-sorriso: o suficiente a me persuadir que a beleza era um mal necessário.
— Os sapatos brancos...— ele disse por fim. Voltou os olhos a um ponto qualquer da minha sobrancelha esquerda. Esperei por uma continuação àquela observação, mas não ocorreu, apenas o silêncio de antes e meu riso pateta.
— Por isso me chamam de Jacinto! — arrisquei desajeitado. Ele já sabia de cor a minha história, repetida tantas e tantas vezes por e-mail, msn, chat e torpedos de final de dia. — Com o tempo aprendi,
— Aprendeu que gastar as solas dos sapatos é uma arte que requer não apenas bons sapatos, mas sapatos brancos.
— Como então?! Já decorou minha resposta pronta a alguém que me pergunte por que sapatos brancos? — Na verdade, não me espantou o fato de ter decorado minhas esquisitices, a julgar pelas tantas vezes que as escrevi nos e-mails enviados a ele.
— Imagino que já não aguenta mais quando falam dos seus sapatos ou te chamam de Jacinto.
— A verdade é que me acostumei ao apelido. Todos me conhecem por Jacinto. Acho que ninguém sabe do meu nome verdadeiro.
— Do nosso nome,
Sim, tínhamos exatamente o mesmo nome, Reynaldo Augusto Costa. Conquanto não tocássemos no assunto, a coincidência dos nomes era a razão pela qual ele adentrava pela primeira vez meu apartamento, enquanto apontava os olhos a algum ponto da minha sobrancelha e falava dos meus sapatos brancos.
****
É certo que todos guardamos um segredo; ainda que pequeno, sempre há de existir um ali, muito próximo daquilo que nos força a dizer “tudo bem” a cada cumprimento. Disfarçado sempre nos há de existir um segredo, a nos doer as pontas dos dedos. Também eu cultivava o meu, o que comprovadamente não fazia de mim um sujeito diferente dos demais. Mas devo admitir que as consequências desse meu inocente segredo quase comprometeram minha sanidade.
No início tratava-se mais de uma mania. Poucos dos meus amigos me chamavam pelo nome. Era conhecido apenas por Jacinto, em decorrência dos sapatos brancos nos quais acomodava meus pés e pelos quais conduzia macio o meu andar. A alcunha se referia ao Jacinto Figueira Jr., aquele do extinto programa televisivo, “O Homem do Sapato Branco”. E por Jacinto, simplesmente Jacinto, todos me tomavam. Talvez por esta razão, tinha necessidade de me inscrever na Internet com o meu nome verdadeiro. E talvez por isso também tinha o hábito diário de procurar por “Reynaldo Augusto Costa” no Google.
Todas as noites, às vinte horas e quarenta e sete minutos, digitava meu nome completo no Google. Um nome nada usual, principalmente pelo nome-duplo Reynaldo Augusto, de modo que o encontrava apenas nos sites que costumava visitar, além dos concursos públicos que prestara e dos abaixo-assinados que sem paciência assinara. As minhas próprias pegadas: era o que efetivamente rastreava. Mas ainda assim não me cansava me buscar na Internet. Às vezes me digitava entre aspas; noutras, sem as aspas, noutras até tão-somente em siglas. Uma gama de combinações me constituía naquele extenso universo de possibilidades. Minhas pesquisas se estendiam madrugada adentro, sem que me cansasse.
Bem verdade que no dia posterior, mal me aguentava no escritório onde trabalhava. Mas me valia mais presente pelo nome que poucos conheciam. Poucos, bem poucos me sabiam pelos três nomes que se formavam devagar a cada letra digitada. E, a cada noite, me encontrava e me perdia nos resultados apontados pelo Google ao meu digitar frouxo. Reynaldo Augusto Costa, como me era caro assim me inscrever. Eu, em código binário. Eu, por meu nome próprio. Eu, antes de nascer. Tornou-se um vício até, minhas buscas madrugada adentro.
Naquela madrugada, entretanto, me perdi de vez ao me deparar com um site que pouco me dizia respeito. Era um site de cirurgia plástica. Pertencia a uma certa Sociedade Ourinhense de Cirurgia Plástica da qual nunca tinha ouvido falar. A princípio, estranhei o site, resultado de uma busca com meu nome completo entre aspas. Digitei novamente meu nome completo entre aspas, na esperança que a página derivasse de um erro de digitação, mas não. Dentre os resultados, brilhava mais forte o tal site, uma espécie de provocação. Entrei no site e eis que surge meu nome completo, Reynaldo Augusto Costa, sob a foto de um cirurgião plástico. Na realidade, a fotografia apenas exibia o rosto um tanto mirrado do médico.
Ele aparentava trinta e cinco anos no máximo, olhos pequenos e escuros sob duas sobrancelhas espessas, a contornarem duas lentes grossas dos óculos sustentados por um nariz adunco, ambos desproporcionais à face magra. Não tinha um rosto harmonioso, mas mantinha um sorriso persuasivo, como se quisesse convencer a quem o visse que beleza era um bem fundamental. Examinei o site durante a noite inteira. Abri todos os links que este pudesse me oferecer, percorri por todos os endereços possíveis e voltei-me à foto do médico por mais de vinte vezes — confesso que na vigésima vez desisti de contar. Nas últimas vezes em que olhei a foto, o cirurgião me parecia menos feio, ou melhor, já me parecia belo, harmonioso aos três nomes que o definiam. Virou uma ideia fixa até, retornar-me àquela foto, atribuir-lhe beleza e relacioná-la ao meu nome. Eu, ele, nós, antes de nascer, o início do meu fim.
****
Quando me dizem bom dia, agarro fervorosamente o dito, como se fosse este um desejo sincero. Uma promessa. Uma previsão de que meu dia será, que sorte a minha!, bom. Assim cubro de agradecimentos verdadeiros aquele que se repete todas as manhãs em bom-dia, e que sequer entende a dimensão do meu obrigado, ao me atropelar com um "de nada" corrido. Já de saída agarrei o “bom dia” automático do vizinho com tal veemência que o assustei, a ponto de abandonar o elevador no andar seguinte.
— Esse não é o térreo, mas o nono andar. — tentei dizer, ao que o vizinho não respondeu.
Continuamos eu e o desejo de bom dia no elevador. Aquele seria um dia bom, assim me convencia. Acordara com algum ânimo além da notícia de que ele me aceitara no Facebook. Tantos e-mails enviados em vão, mas por fim, ele aceitara meu convite. Não sabia que tínhamos o mesmo nome, pois o convidara com o perfil do Jacinto. Tampouco sabia ele da minha obsessão. Das vezes que liguei ao seu consultório por engano. Das madrugadas em que o procurei no Google, em que o espionei na Internet. Não, não o sabia. Nem mesmo eu já sabia de mim. Já não me reconhecia.
Mas naquela data, agarrado ao “bom dia” do vizinho, entraria no Facebook do escritório mesmo e me revelaria ao outro, pelo nosso nome. Aquele era o momento, não conseguiria mais tempo a guardar um segredo. Necessitava me libertar daquilo que me consumia, que me embaralhava em uma pesada paixão. Ao chegar ao escritório, contudo, tive uma surpresa. Um sujeito, de nome Reynaldo Augusto, tinha me procurado ainda bem cedo.
— Ligou ainda agora pela segunda vez. Não sabia que você era Reynaldo! Sempre achei que fosse Jacinto. — se repetiu a secretária, ao me entregar o papel anotado com o telefone e o nome-duplo, igual ao meu.
Tomei algum fôlego, acertei o dedo indicador aos oito números e esperei.
— Alô?
— Oi, meu nome é Reynaldo Augusto — havia muito tempo que não pronunciava meus dois nomes em um lugar público, engasguei satisfeito — me avisaram que o senhor ligou aqui no escritório procurando por mim.
....
— Alô?
— Desculpe. É que a história é um pouco longa. Pra encurtar, recebi uma correspondência de uma loja aí em São Paulo, sobre um cheque sem fundo. Mal vou pra São Paulo, achei no mínimo, engraçado.... Então descobri que existia outro Reynaldo Augusto Costa, que morava em São Paulo. Descobri também onde ele trabalhava. Liguei já duas vezes aí. Engraçado...demoraram a saber que era você. Achavam que seu nome era Jacinto.
— Pois é, um nome tão diferente, e temos os dois, o mesmo nome. Jacinto é meu apelido.
— Como?
— Todos aqui me conhecem por meu apelido: Jacinto.
— Engraçado...— para ele tudo parecia engraçado, tinha uma voz pausada, um tom grave, a fazer do engraçado algo estranho, quase uma tragédia.
Aos poucos nos apresentamos pra além dos nossos nomes iguais. Mais tarde disse a ele do convite no Facebook, e da amizade que viria nascer após o telefonema. Continuamos a nos corresponder por e-mails, msn, chat e torpedos de final de dia, até que por fim acertamos sua visita ao meu apartamento assim que ele viesse para São Paulo.
No dia combinado, me preparei ao apartamento que o receberia pela faxina e pelo banho de colônia. O relógio apontava dez para sete da noite. Ele chegaria dali a menos de duas horas. Aguardei ansioso enquanto observava sua foto na Internet. Um par de olhos escuros e um meio-sorriso: o suficiente a me persuadir que a beleza era um mal necessário.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Eccho
Se me perguntarem por que uso sapatos brancos responderei de sorriso apertado que com o tempo aprendi que gastar as solas dos sapatos é uma arte que requer não apenas bons sapatos, mas sapatos brancos. Certamente que ainda me incomoda quando me comparam ao Jacinto Figueira Jr., aquele do extinto programa televisivo “O Homem do Sapato Branco”, mas é inevitável a lembrança, assim como a alcunha, da qual ainda hoje não consegui me desvincular: Jacinto. Sim, o codinome não me soa real, haja vista minha imagem torta que dispensa apelidos. Mas é como me chamam já há um bom tempo, e assim me deixo chamar desde quando me acostumei ao andar macio pelo qual meus sapatos brancos me conduzem. Hoje, poucos conhecem meu nome, sabem apenas que sou o Jacinto, com o que, bem verdade, já me dou por satisfeito, afinal não tenho grandes pretensões além desta, acomodar meus pés nos sapatos brancos.
(início do conto que estou escrevendo para a Revista Vudú)
Logo "falo" (porque acho que falo aqui no blogue!) mais do conto e da revista, um projeto bem bacana do escritor colombiano Lucas Vargas
Mais sobre a revista aqui Revista Vudú
(início do conto que estou escrevendo para a Revista Vudú)
Logo "falo" (porque acho que falo aqui no blogue!) mais do conto e da revista, um projeto bem bacana do escritor colombiano Lucas Vargas
Mais sobre a revista aqui Revista Vudú
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Videocast Versão 3D
O Vídeo também pode ser assistido na versão 3D. Segundo o Pipol, "se você não tiver em casa um daqueles óculos de papel-cartão com as lentes azul e vermelho, aqueles mesmo que vem em revistinha para crianças, é só ir a uma banca de jornal e comprar uma dessas revistinhas. É baratinha e tem em todo o Brasil."
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Videocast Cronópios
O Cronópios tem realizado um interessante projeto com videocasts, gravados no escritório do portal com artistas e escritores. Os vídeos são incríveis e mostram porque Pipol é o responsável pelo melhor Portal de Literatura do país. Tive o privilégio de participar de um Videocast, e o resultado vocês podem conferir agora.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Versão definitiva
Sempre que abro o computador, incomoda-me o nome do arquivo do meu primeiro romance, na verdade novela, ou qualquer gênero que o valha: estamos todos bem versão definitiva. Assim o nomeei como forma de convencer a mim mesma de que se é definitivo, ainda que a cada leitura eu modifique o que leio, sem dó. Posto aqui a última modificação do início de Estamos Todos bem, pois assim aumento as chances de pelos olhos da Internet modificá-lo ainda mais.
{...}As formigas passeavam famintas pelo açucareiro. O café sorvia frio e atravessado a realidade triste de Clara. Tentou sorrir ao ouvir a última palavra entoada com as notícias da manhã: “divórcio”. Ele fechou os olhos com força:
— Tudo vai ficar bem, Clara. Tudo vai ficar.
Ela arrematou o gole de café. Secretamente, sonhava com um saboroso adeus. Era para ser perfeita, a despedida. Um dos réquiens de Mozart, sublimado pelo quarto movimento da nona sinfonia de Beethoven. Mas sob as palavras “tudo vai ficar bem”, conseguia apenas sentir na boca do estômago a bílis ácida da separação. Agora não tinha o refúgio do sonho. Agora era o que se entendia por real: a fusão do café frio à realidade a queimar por dentro.{...}
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
[...] La irrupción del
pasado puede romper el orden establecido. Esto es lo que
pretende en líneas generales V. H. Rossi en esta fascinante
colección de cuentos que es Mind the Gap: mostrar la cotidianeidad
invirtiendo el orden definido por el presente,
por la realidad, creando situaciones extrañas y desconcertantes
que a buen seguro llamarán la atención del lector. [...]
Trecho do brilhante prefácio assinado pelo escritor espanhol Pedro Amorós
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Mind The Gap - Editora Patuá
Novidade: em breve, o conto Remediado Está poderá ser lido em Mind the Gap, meu livro de contos pela Editora Patuá,
Lançamento previsto para dia 4 de setembro, domingo, às 19h. Mais informações aqui.
Obs: O livro já está no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/185881
Lançamento previsto para dia 4 de setembro, domingo, às 19h. Mais informações aqui.
Obs: O livro já está no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/185881
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Remediado está
"'Pharmakon, o amor é pharmakon.' Assim se apresentou à garota e à sua lata vazia de cerveja. A garota não era bonita ou feia, gorda ou magra, mas se fechava em uma indefinível vontade quando conduzia a lata de cerveja à boca, o que de imediato o conquistara. Percebera-a no intervalo breve entre o quarto e quinto gole longo de vodka. Ela bebia-se sozinha no canto mais escuro do bar, meio em pé, meio apoiada na parede. Os quadris se sustentavam largos [...]"
Início do conto inédito REMEDIADO ESTA
Início do conto inédito REMEDIADO ESTA
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