"Querida, você tem um coração na garganta"
Minha avó

terça-feira, 24 de julho de 2007

"Morte no Avião" trechos

"Acordo para a morte.
Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia
cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre.
Saio para a rua. Vou morrer

[...]
A morte dispôs poltronas para o conforto
da espera. Aqui se encontram
os que vão morrer e não sabem.
Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido,
pequenos serviços cercam de delicadeza
nossos corpos amarrados.
Vamos morrer, já não é apenas
meu fim particular e limitado,
somos vinte a ser destruídos,
morreremos vinte,
vinte nos espatifaremos, é agora.

Ou quase. Primeiro a morte particular,
restrita, silenciosa, do indivíduo.
Morro secretamente e sem dor,
para viver apenas como pedaço de vinte,
e me incorporo todos os pedaços
dos que igualmente vão perecendo calados.
Somos um em vinte, ramalhete
de sopros robustos prestes a desfazer-se.

E pairamos,
frigidamente pairamos sobre os negócios
e os amores da região.
Ruas de brinquedo se desmancham,
luzes se abafam; apenas
colchão de nuvens, morros se dissolvem,
apenas
um tubo de frio roça meus ouvidos,
um tubo que se obtura, e dentro
da caixa iluminada e tépida vivemos
em conforto e solidão e calma e nada.

[...]

Ó brancura,serenidade sob a violência
da morte sem aviso prévio,
cautelosa,
não obstante, irreprimível aproximação de um perigo
[atmosférico
golpe vibrado no ar, lâmina de vento
no pescoço, raio
choque estrondo fulguração
rolamos pulverizados
caio verticalmente e me transformo em notícia."

Carlos Drummond de Andrade

4 comentários:

Gabriela Kimura disse...

Vera, a Luciana timha comentado sobre você e fico feliz que tenha gostado do livro. Vou vir aqui mais vezes. Um beijo.
P.S.: Gosto muito do Barthes, especialmente do "Aula".

Vera Helena disse...

Gabriela, eu não gostei, eu adorei seu livro. Foi uma surpresa boa encontrá-lo ali escondido na estante entre os outros livros do sebo do Bac. Li, lá mesmo, no Satyros, devagar, para prolongar o efeito que o livro me causou. Ah, e venha mais sim, postarei masi Barthes, de quem também gosto muito.

Use the force! Use the smile! disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Use the force! Use the smile! disse...

Gostei... do pouco que conheço é sem duvida um dos grandes poetas da lingua Portuguesa!!

Continue divulgando!

Fica aqui um dos meus preferidos, pelo tema abordado, pela forma que é abordado!!


A Agua - Poema de Bocage
"A Água",
de Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Um clássico da literatura portuguesa


"A Água"

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.


Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.


Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho


Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.



Delicioso não?

Saudações de Portugal