"Querida, você tem um coração na garganta"
Minha avó

terça-feira, 13 de maio de 2008

Malabarismos do cotidiano

Estava eu, ligeira, pela alegria intransitiva, dessas que garantem alguma ilusão, a me largar no caminhar desnorteado de dois pés doídos. Até que, no metrô, percebi quão velozmente se esgarça tal sentimento de meu sorriso besta, ante tantos corpos pendurados e cansados sob o solo.
O sorriso deu lugar a um calor desajeitado, que passou a queimar mais desajeitadamente com a urdidura de palavras furiosas direcionadas ao meu corpo bambo. Tratava-se de um pai sem filho que queria meu pedido de perdão. Sim, perdão, pelo esbarrão em seu braço inviolável.
Pediria perdão. Mas não era o caso. Decidi me calar. Ele me olhou recriminador, em quase desespero por um pedido de desculpa. Seria impossível. Iria descer (ou subir, termo mais dantescamente adequado), naquela estação.
Pretendia ao menos dizer a ele o que sentia. Às vezes, não sobra tempo para dizermos o que sentimos, e terminamos por nos afastar estranhos, a nos incomodar com o suor que cinge a pele e amarela nosso andar.
Recuperei meus pedaços e continuei meu caminhar desnorteado. Ele, este findou seu dia sem sequer um pedido de perdão.

4 comentários:

Douglas Vian disse...

Veruska,

Também como pai, porém com filhos, muitas vezes quero desculpar-me por coisas que imagino ter feito, mas no momento seguinte não me encontro, então perco-me totalmente. Acho que são coisas de pai...com filhos.

Seu blog continua sendo uma referência para reflexão.
Um grande abraço

Vera Helena disse...

Douglas, Muito obrigada [Sei que suas únicas palavras como pai seriam "de nada", mas silencio] Quanto ao outro, o sem filhos, este, talvez por falta de coragem ou por falta apenas, precisou de outra voz, de outra garganta, enfim, de outros pulmões, para pedir perdão em um berro. Não o fiz, por compaixão, e uma pitada de crueldade tbm.

Anônimo disse...

Um diretor de cinema ,falando sobre o filme de Meirelles [que abriu o fest de CANNES] mencionou o nosso descaso [NAO é o seu caso] com as pessoas O filme é Ensaio sobre a cegueira e achei interessante um diretor americano ter essa visão sobre gente pobre e desclça Diria que a cegueira às vêzes nos surpreende pois nem sempre é conscienteNÂO é seu caso ,Vé super sensível! bisous

Ana Maria disse...

ai ai...

que orgulho dessa escritora que usa como tinta a alma...

sou sua fã!

bjoka